terça-feira, 2 de dezembro de 2008

MAIS UM SUSPEITO EM CARGO IMPORTANTE



PMDB indica para TCU senador denunciado no STF
PMDB indica para TCU senador denunciado no STF
FolhaNo seio de suas estruturas arredondadas, o Congresso produz uma rotina enfadonha.
Sob o concreto obscuro de Niemeyer, armam-se ciladas contra o interesse público.
Vem do PMDB a penúltima emboscada. O partido indicou o senador Leomar Quintanilha (TO) para o posto de ministro do TCU.
Se referendado pelos colegas, Quintanilha ocuparia simultaneamente duas cadeiras: a poltrona do TCU e o banco de suspeitos do STF.
À condição de suspeito de profanar as arcas públicas, o senador agregaria a credencial de guardião do erário. Seria juiz e investigado.
Quintanilha foi indicado pelo líder do PMDB, Valdir Raupp. Ignorou-se uma exigência básica: a reputação ilibada.
O candidato do PMDB ao TCU responde a um par de inquéritos no STF (1.882, de 2003 e 2.274, de 2005). Foi denunciado pelo Ministério Público.
Integra o rol de indiciados em processos que apuram um esquema de troca de emendas ao Orçamento da União por propinas de empreiteiras.
Responde por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Os desvios foram estimados pelo Ministério Público em pelo menos R$ 25 milhões.
Dinheiro público, liberado por meio das famigeradas emendas parlamentares para obras fraudadas em Tocantins.
Há no inquérito seis dezenas de acusados. A lista inclui cinco políticos, todos de Tocantins. Entre eles Quintanilha.
O caso veio à luz em 2002. Denunciou-o o procurador da República Mario Lucio Avelar. Na ocasião, trabalhava em Palmas (TO). Hoje, encontra-se em Cuiabá (MT).
Contam-se em três dezenas as empreiteiras envolvidas nos desvios. Muitas eram empresas-fantasma.
Serviam apenas para participar de licitações fraudulentas, dando ares de concorrência a disputas de fancaria.
A apuração foi feita com a ajuda da Polícia Federal e da Receita.
Realizaram-se escutas telefônicas e operações de busca e apreensão de documentos. Quebraram-se sigilos bancários.
Entre os papéis apreendidos há uma relação de pagamentos de propinas a políticos.
O dinheiro foi repassado, de acordo com o Ministério Público, ora diretamente ora por meio de assessores e parentes.
Dois dos envolvidos foram vinculados a Leomar Quintanilha. Receberam das empreiteiras cerca de R$ 280 mil em cheques.
Há também nos autos pelo menos um recibo com o nome do senador Quintanilha. Refere-se a uma suposta propina de R$ 10 mil.
Foi apreendido na sede de construtora chamada Talismã, acionista de outra empreiteira apontada como cabeça do esquema de Tocantins, a Mendes & Fachini.
São dois os inquéritos relacionados ao caso. Ambos mencionam Quintanilha.
Correm no STF, sob segredo de Justiça. Um trata de corrupção. O outro de sonegação fiscal.
Quintanilha nega as acusações. E o PMDB parece dar-lhe crédito irrestrito. A indicação causou espanto até no TCU, uma casa apinhada de ex-congressistas sem-voto.
A cadeira que vai vagar no tribunal é a de Guilherme Palmeira, um ex-senador do ex-PFL.
Concorre com Quintanilha um outro ex-senador, José Jorge (DEM-PE).
Jorge não tem a ficha corrida de Quintanilha. Traz a biografia limpa. Mas compartilha com o rival um vício capital: é político indicado para uma função que deveria ser técnica.
A disfunção não causa incômodo ao Congresso. Ali, sob a sombra das cuias de Niemeyer, o inacreditável não se cansa de aliar-se ao inaceitável para emboscar o interesse público.
Escrito por Josias de Souza às 19h33

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