Mara Cirino
Para:
Maroka
Data:
19/06/2009 15:31
Assunto:
Fw: Carta ao senhor ministro Gilmar Mendes - De uma jornal ista diplomada, apaixonada pela profissão
Carta ao senhor ministro Gilmar Mendes
De uma jornalista diplomada, apaixonada pela profissão
Depois de dois dias refletindo, hoje, enfim, acho que consigo escrever sobre essa situação que me deixou fora do ar. O dia 17 de junho de 2009 vai ficar marcado na minha vida como o dia em que o Supremo Tribunal Federal, o conhecido STF, acabou com uma classe profissional. Não por extinguir o diploma, mas pelos argumentos absurdos e comparações sem noção que fez acerca da minha profissão, digo minha, por desde que tinha 14 anos sabia o que queria e muito lutei por isso.
Senhor ministro Gilmar Mendes, são 40 anos de história, quase a minha idade, afinal tenho 39. A exigência do diploma é um resquício da ditadura? Sim, ninguém nega isso. Só que nessas quatro décadas, a ditadura caiu no país, assim como os valores foram renovados. Ou seja, quem hoje é jornalista, assim o faz por opção, por gosto, por prazer, afinal, são quatro anos de faculdade e 24 horas de dedicação. O senhor vem falar de LIBERDADE DE EXPRESSÃO?! Oras, ninguém é impedido de escrever, de falar, de opiniar. Vivemos em um mundo de tecnologia. A internet está ai, os blogs proliferam a cada segundo. E neles estão as opiniões de cada um. Por que o senhor acha que, especificamente, isso deve ser feito em veículos de comunicação que, aliás, abrem espaço para articulistas, comentaristas fazerem suas reflexões a respeito de determinado assunto?
Ser jornalista não é apenas escrever no jornal, aparecer em um telejornal ou falar em rádio. Tem muito mais coisas envolvidas, caso o senhor não saiba. Ser jornalista, envolve técnica sim, envolve a questão ética, hoje trabalhada nas faculdades e nos ensinamentos da vida. Envolve você apurar uma notícia e repercutir com os dois lados. Envolver você estar atenta 24h para acompanhar uma determinada situação.Envolve você não ficar refém de organizações, de grupos políticos que temem que suas negociatas sejam estampadas em letras garrafais nas manchetes dos jornais, ou na abertura dos telejornais.
Senhor ministro, existem jornalistas e pseudos jornalistas, assim como em qualquer outra profissão, ou será que estou enganada? Muito me indigna quando tenho acesso a alguma reportagem que contenha atos falhos cometidos por algum colega de profissão. Mas fico irada quando sou comparada da pseudo jornalista que não tem a menor noção do que seja ética, que seja um lead, que não sabe nem escrever, que não trabalha uma matéria, que utiliza-se da técnica do Control C + Control V para produzir um jornaleco, um programete de Tv que atenda a interesses particulares. Porque, passar por um banco de faculdade, se especializar, essas pessoas não querem. É contra essas pessoas que o senhor deveria ter se posicionado. São essas pessoas que transformam a nossa profissão em algo descartável, algo que o senhor agora jogou no lixo depois de pisotear sobre milhões de cabeças contra interesses de uma minoria. O senhor fez uma lambança sem tamanho, sem precedentes.
O senhor fala de alguns nomes do jornalista do século 20, aliás, grandes escritores, pensadores inenarráveis, homens das letras. Sim, eles foram e sempre serão exemplos de homens que contextualizavam uma época com seus pensamentos, entenda bem, suas opiniões. Hoje, trabalhamos com fatos, fatos apurados. Somos emissores de noticias que auxiliam na formação do povo. População essas, que parece que o governo não tem intenção de que seja bem informada.
Uma vez o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murillo, comentou que durante todo esse processo, conseguiu a atenção do senhor apenas uma vez das três que esteja na sua frente. Quando questionou uma ação impetrada por um homem que queria receber o MTB, nosso tão suado Registro Profissional, mas que em sua identidade constava como não-alfabetizado. Ora, isso é humilhante. O senhor deveria se preocupar com a qualidade ou falta de ensino no país. Isso sim seria mais digno de sua parte.
Agora, me responda uma coisa, a todos nós jornalistas diplomados. O STF vai fazer concurso para a Assessoria de Imprensa? Ah, então o senhor vai exigir que os candidatos tenham diploma ou não? Não, então um engenheiro, um advogado, um médico vai poder prestar o concurso para trabalhar nessa área que é específica para o jornalista? Ou nós, hoje órfãos da profissão, não poderemos mais prestar nenhum concurso para a área específica? Ou poderemos concorrer para cargo de promotor, de juiz. Afinal, temos curso superior sim senhor. Ou só poderemos prestar concurso para cargos de nível médio?
Senhor ministro Gilmar Mendes, espero que a partir de agora o senhor durma tranquilo em sua linda cama, porque muitos jornalistas, neste momento, ainda se perguntam como o Brasil, pode ter um ministro com a sua conduta.
Mara Cirino
Jornalista formada há 18 anos
3 comentários:
Parabéns Mara!
Concordo com cada palavra por você escrita nesta carta. Parece que nossos governantes não estão interessados em construir uma sociedade com idéias próprias e com formação de caráter. Massa de manobra é mais fácil de controlar...
Um abraço e novamente, meus parabéns!
Marcus Gomes
Presidente da ASCAFF
Essa mudança deveria ser feita paulatinamente.
Existe muitos estudantes suando a camisa para pagar um diploma desprestigiado.
É um absurdo!!
MARA, INFELISMENTE NO BRASIL É ASSIM, VC JOGOU AONDE? SÓ ASSIM SERA RESPEITADA.
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