quinta-feira, 3 de setembro de 2009

UM SERVIDOR PÚBLICO ENVERGONHADO

Juca, um cidadão de instrução invejável tido e respeitado como inteligência acima da média, vem há alguns anos ocupando cargo público na condição de estável. Na sua cidade o cargo lhe dá estatos mas não lhe remunera o suficiente para viver a vida que gostaria. Juca, que está dentro das esferas das decisões no poder do qual faz parte, tem que manter em primeiro lugar, por questão ética o silêncio sobre o que assiste e houve, especialmente quando as portas estão fechadas e as pessoas acertando detalhes das negociatas que acontecerão por certo em prejuízo do interesse público. Dia desses discutia-se a formação do caixa dois para a campanha a prefeito de um dos partícipes do grupo. Falavam em milhões de reais para custeio da eleição e o tal fulano garantia que com esse valor ninguém o venceria. Coisa assim de três milhões de reais numa cidade de pequeno porte.
De onde vai sair o dinheiro, era a questão posta. Ninguém dos presentes tinha dinheiro algum para por no negócio, mas começaram as discussões, sobre o quanto que cada grande empresário da cidade iria colocar na mesa. Ai um disse: As empresas de ônibus faturam muito e nós podemos combinar com eles, aumentaremos o valor da tarifa, não fiscalizamos as roletas para não saber quantos passageiros foram transportados e eles bancam uma parte. A empresa do lixo, nós não fiscalizamos a quantidade de toneladas coletada e eles bancam outra parte. Assim ia rolando o assunto, enquanto Juca, que não era candidato a nada, não tinha dinheiro para por na campanha, nem sabia porque estava por ali ouvindo tantas asneiras.
Sobre a situação dos servidores não se falava nada, sobre aumento de salário dos efetivos, sobre condição de trabalho do pessoal, sobre plano de saúde, sobre reciclagem dos servidores, novas formas de trabalho, nada disso era assunto que interessasse.
Zeca saiu da sala ao final de tudo foi para sua mesa de trabalho, olhou o que tinha para fazer, quase nada, porque lá quase nada funciona e assim que deu o horário foi pra casa, comeu viu televisão e se preparou para dormir bem, se puder, para cumprir amanhá mais um árduo dia de trabalho.
À noite conversou um pouco com a mulher e meio envergonhado dizia que o salário, apesar de não ser tão alto, era um peso na sua consciência, mas o recebia porque precisa sobreviver.
O sentimento de inúmeros, não todos , é lógico, servidores públicos é exatamente esse. O sentimento de não cumprir com tarefa justa e de receber um salário que poderia ser mais justo se a categoria profissional fosse tratada com respeito, carinho, valorizada em cada tarefa realizada, e principalmente se visse que o resultado do seu trabalho fizesse melhor a vida de cada cidadão que lhe paga o salário.
O jardineiro, figura simbólica que sempre existiu no poder público, o homem que cuidava da praça pública, sorria ao ver pessoas admirando a beleza das rosas, advertia as crianças a não pisarem na grama, e viva feliz ao ver o seu jardim, bem cuidado, e ia aguar as plantas até no domingo, mesmo que não recebesse horas extras. Era o amor à arte. Hoje até essa figura importante foi terceirizada e o compromisso com os jardins é cortar a grama a nada mais.
Será que algum dia teremos servidores públicos exibindo orgulhosamente o seu crachá pendurado ao peito como um troféu, a lhe garantir crédito no comércio e respeito da sociedade ?

Um comentário:

Anônimo disse...
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